sábado, 19 de julho de 2008

A minha 'tropa' [1]



Guiné -> Out.68 a Dez.70 -> 26 meses [1]



Há cerca de três meses, vi na televisão parte de uma reportagem desenrolada em Guidage, no norte da Guiné, a respeito da identificação, para posterior trasladação, dos restos mortais de soldados que no início dos anos 70, devido a situações dramáticas vividas lá na altura da guerra colonial, tiveram de ser sepultados naquela zona [procedimento ao arrepio do que era normal, ou seja, o envio dos corpos para a metrópole e a sua entrega aos familiares].

Lembrei-me, então, que estive na Guiné durante 26 meses da minha 'tropa', e que dois ou três deles foram passados naquela povoação. Recordei também algumas das peripécias que lá vivi ou presenciei. E recordei ainda a boa sorte que me acompanhou durante todo aquele tempo.

Cheguei a Bissau em finais de Outubro/68, após uma viagem de uma semana a bordo do "Uíge". Na época, este navio de passageiros estava requisitado para o transporte de tropas destinadas ao Ultramar e, por isso, seguiam a bordo mais de dois mil militares. E, destes, a grande maioria era constituída por soldados rasos que viajaram nos porões em péssimas condições.

O 'meu' grupo viajou em camarotes e era constituído por vinte e poucos furrieis milicianos das "Informações", especialidade que tínhamos tirado juntos em Tavira no fim do ano anterior. Fomos todos mobilizados em rendição individual para a Guiné [numa altura em que já estávamos esperançados de não ir para o Ultramar, visto que um mês depois outra 'fornada' de milicianos terminaria a especialidade].

Como aquele navio era de grande calado, teve de ficar ao largo do porto de Bissau. O transporte das tropas para o cais foi feito em barcaças. A meio da tarde, o 'meu' grupo chegou ao cais, todos vestidos com fardas de camuflado, novas a estrear, compradas umas semanas antes no Casão Militar. [E, por causa dessas fardas novas, os militares chegados pela primeira vez à Guiné eram apelidados de 'periquitos'].

Fomos, então, os vinte e tal, distribuídos por viaturas Unimog e GMC [viaturas militares de caixa aberta e banco corrido ao centro] a caminho do Quartel General. A mim e a mais cinco, calhou o transporte numa 'velhinha' GMC. A meio do trajecto, a 'nossa' viatura avariou e... nem para a frente, nem para trás. O soldado que a conduzia apanhou uma boleia e foi ao QG arranjar outro meio de transporte, enquanto nós, os seis 'periquitos', ficámos à espera, sentados no banco central da 'gê-éme-cê'.

Entretanto, o tempo ia passando e... nada! O transporte alternativo tardava. E o tempo continuava a passar. Eram mais ou menos seis da tarde e... de repente, anoiteceu! E nós, os 'periquitos', acabados de chegar a Bissau, sentados na GMC, às escuras numa estrada sem luz, estávamos ali todos 'cagadinhos' de medo. Olhávamos em redor e apenas conseguíamos vislumbrar vultos a passar a pé ao lado da viatura. Seriam 'turras'?...[designação dada aos combatentes das forças de libertação que o regime salazarista chamavava de terroristas].

Após duas horas e tal de espera, finalmente chegou o condutor com outra viatura. E, já noite feita, lá nos conduziu ao QG.

Mas, daqueles 'caguefes' e de algumas cuecas borradas, já ninguém nos livrou!


Nota: De vez em quando, hão-de aparecer aqui textos subordinados ao tema da minha 'tropa'.

3 comentários:

Sílvia disse...

Obrigada. Adorei ler este post. Escreve sobre os teus tempos de tropa sempre que te apetecer!

nandokas disse...

Olá sílvia,
Fico contente por teres gostado.
Beijinho.

redonda disse...

Tenho dois colegas de trabalho que estiveram na Guiné. Gostei de os ouvir sobre o que contaram da sua passagem por lá e também gostei de ler agora.