sábado, 2 de maio de 2009

Margens






Margens que afastam pessoas, que distanciam terras. E que as águas do rio, uma vezes calmas no seu vagar para chegar à foz, outras mais apressadas para alcançar esse destino, se encarregam de ligar, de estabelecer contactos de aproximação.



- Ó Ramiiiro!

[chamemos-lhe assim, com esta distância de anos não me lembro do nome do homem]

- Ó Ramiiiro! Ó Ramiiiro! continuava aquele chamamento em forma de berraria, das bandas de Esposade para a margem em frente. Era a minha avó Quitéria, com as mãos em concha junto da boca, a chamar pelo barqueiro, que momentos depois respondia numa voz arrastada
- Já vouuu!
e, após uma espera de alguns minutos, lá aparecia uma barcaça enorme,

[enorme e atraente para mim, um catraio de oito anos para quem, habituado à cidade, ali todas as coisas eram novidade]

com a madeira do casco envelhecida pelos anos e gasta pela correnteza, vinda da margem sul, com o Ramiro a manobrar os dois remos e a encostar a terra de estibordo para os viajantes, a minha avó e eu, podermos galgar a altura do costado. E lá íamos com destino à outra margem. O barqueiro, na sua tarefa de levar o barco para o outro lado. Eu, feliz e despreocupado, a ver o barco a deslizar pelas águas calmas, naquela manhã de verão, de sol acolhedor. E a minha avó, a olhar o carrego das passadeiras

[tecidas pela minha bisavó Ana no tear situado no piso térreo da casa de aldeia onde o meu pai nasceu e cresceu]

que levava ali para satisfazer as encomendas de clientes de Crestuma, na margem sul do Rio Douro.






[recordações da minha infância e das férias escolares - férias grandes, como se dizia - gozadas na terra do meu pai: Jancido, Foz do Sousa]

Nota: A foto foi obtida de Caldas de Aregos para a margem norte do Rio Douro e, portanto, não diz respeito à zona a que se reporta o texto. Mas como não tinha outra mais apropriada para servir de "boneco" para este post...

2 comentários:

Menina do Rio disse...

Imagem linda!

Desculpe a minha ausência mas tive que trabalhar dobrado estes dias de abril, pois precisava pagar o registro e a capa do meu livro. Era uma oportunidade que eu não podia deixar passar. Agora vou retornando as visitas aos poucos, mas hoje tinha que vir aqui ao menos pra deixar-te um beijo.
Tem um ótimo domingo!
Verô

Deus disse...

E eu, um puto, não me vou esquecer da travessia do Douro, suma aventura, entre o Freixo e Oliveira do Douro. Estou a ficar velho.