terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Conto de Natal


Ainda não são oito horas da manhã e os miúdos já estão a pé, mais cedo do que é costume. O rapaz tem quatro anos feitos há poucos dias e a irmã está quase a fazer dois. Mal se levantam vão logo à cozinha, onde na noite anterior, depois da consoada, foram pôr os seus sapatitos em cima do fogão.

Os pais, ainda jovens à roda dos trinta e poucos anos, de origens humildes, estão ali ao lado, despertos, a observá-los. E sorriem entre eles, cúmplices, ao repararem nas caras de contentes dos filhos ao descobrirem o que o Pai Natal lhes tinha trazido durante a noite.

A miúda, de pé, embala nos braços pequenos uma boneca simples, vestida com um camisa e uma saia comprida, ambas de chita, enquanto o irmão, sentado no chão, empurra com as mãos uma camioneta de caixa aberta, de madeira, pintada com cores garridas.

Os miúdos não fazem ideia que os pais, nos últimos dois meses, tiveram uma preocupação a mais para, quase todos os dias, pouparem uns tostões de modo a conseguirem comprar aqueles dois brinquedos simples, na loja lá da rua. E também não sabem que os pais, naquele momento, sentem-se compensados daquele sacrifício diário pelo contentamento que notam nos rostos e nas atitudes dos filhos e que isso os torna ainda mais unidos.

Na altura ninguém sabe quando é que a boneca irá ficar sem braços ou sem pernas, pois pode aguentar intacta uns dias ou até uns meses.

Na altura também ninguém pode adivinhar que, daqui a algumas semanas, o miúdo irá brincar para a rua, a caminhar às arrecuas entretido a puxar a camioneta de madeira presa por uma corda, até se precipitar numa abertura de acesso aos esgotos, que os funcionários das águas e saneamento deixaram sem tampa e sem resguardo durante os trabalhos de limpeza lá no fundo.

E não havendo o dom de prever o futuro, naquele momento o que interessa, numa casa onde os recursos são poucos, é aproveitar a quadra do Natal, pois não é todos os dias que há brinquedos novos para as crianças e almoço de ‘roupa velha’, com sobremesa de aletria e rabanadas.


Nota:
O miúdo de quatro anos do conto sou eu. E se, passados quase sessenta anos, hoje estou aqui a escrever estas linhas, escorreito e com saúde, foi graças à conjugação de duas situações de sorte, que muitas vezes me foram recordadas pelos meus pais:
- uma, o facto de ter caído de pé, perpendicular ao chão, a quatro ou cinco metros lá no fundo, e sem ter tocado nos degraus de ferro implantados na parede interior do acesso;
- outra, o facto de ir a passar ali um elemento da Guarda Republicana que, apercebendo-se do que tinha acontecido, desceu logo por aqueles degraus e foi-me resgatar lá ao fundo, que naquela altura estava seco pois decorriam trabalhos de limpeza.

6 comentários:

Gigi disse...

"Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo"
Este é um ditado popular ao qual dou valor porque sou mãe de dois traquinas que ainda hoje não param sossegados.
Ainda bem que estás aqui hoje, escorreito e com saúde.

nandokas disse...

Olá gigi,
Tens razão, e aquele provérbio popular já fez sentido muitas vezes na minha vida: comigo, com o meu filho e agora com os netos.
E obrigado pelo teu "ainda bem...".
Beijinho

pin gente disse...

é o que se chama uma sorte... para todos nós, note-se!

certamente não estarias a rezar (como se costuma dizer!)... eu tenho cá três pestinhas a quem o provébio da gigi também se aplica.

abraço
luísa

nandokas disse...

Olá pin gente,
No momento, parece que foi um susto dos diabos para a minha mãe, que viu a cena de longe. E depois, com a sorte da situação, foi um alívio dos... diabos. [A minha mãe é que me conta...]. E, pelos vistos, eu era muito traquina [jeito que ainda hoje mantenho... eheheh].
E obrigado pela tua "sorte... para todos nós".
Beijinho

redonda disse...

Também pensei logo no ditado que a Gigi refere. Ainda bem que foi o que aconteceu.

nandokas disse...

Olá redonda,
É, de facto, o ditado popular que melhor se aplica ao que aconteceu.
E obrigado pelo teu "ainda bem...".
Beijinho