domingo, 24 de junho de 2007

História de uma noite de S. João


Na altura, eu teria à volta de vinte anos. Foi, portanto, quase há… é isso, foi ‘ontem’. Apesar de nascido e criado até aos doze anos no Porto, ao tempo residia com os meus pais em Leça da Palmeira.

E isto passou-se durante uma noite de S. João. O meu grupo de amigos, mais ou menos da minha idade, juntou-se no Café Leça. E daí partimos, em dois ou três ‘bandos’, uns de autocarro e outros de eléctrico, para a baixa do Porto, a caminho das folias da noitada de S. João.

Por volta da uma e meia da noite, o grupo onde eu ia em rusga encontra-se com outro, de amigos nossos, na Rua Sá da Bandeira, em frente a Sampaio Bruno. E tudo à martelada e aos berros: e salta, e grita, é S. João. No meio daquela algazarra, com o meu quase metro e setenta, salto ao mesmo tempo com um amigo a rondar os quatro centímetros depois da fasquia dos dois metros. E, quando já estou com os pés no chão, o meu amigo ainda vem a descer e a aterrar com um dos cotovelos na minha cabeça. “Eh pá, f***-**!” “ Desculpa!” “Ok, não há problema, a malta está aqui é p’ra se divertir”. E salta, e grita, e corre, é S. João. E salta, e grita, e corre, e lá vamos em dois grupos, em rusgas serpenteadas, cada um para o seu lado.

Já passa das cinco da madrugada. Os corpos moídos pelo cansaço das correrias e das folias. E dá-se uma paragem de indecisão para escolher o sítio onde vamos comer umas sandes de presunto e beber umas cervejas. Sinto a cabeça humedecida e penso que é das ‘orvalhadas’ de S. João. Às tantas, ponho a mão à cabeça e reparo nos dedos molhados, tintos de… sangue. O que teria acontecido? A conclusão foi de dois segundos: o cotovelo daquele meu amigo tinha feito estragos…

Fui à urgência do Santo António. Não havia pessoas à espera e, por isso, fui atendido quase de imediato. Tinha um ‘lanho’ na cabeça. Raparam-me a zona. Levei uns pontos, já não me recordo quantos. E de lá saí com um ‘salapismo’* no alto da cabeça, mais ou menos no sítio onde antigamente os padres tinham a ‘coroa’**.

Se algumas histórias têm ‘moral’, a desta é a seguinte: nunca saltes com gajos muito mais altos do que tu, pois podes aleijar-te!...


Notas:
*- Na nossa linguagem de calão daqueles tempos, ‘salapismo’ era sinónimo de curativo.
**- Naquela altura não percebia, e até hoje ainda não entendi, a função da ‘coroa’ dos padres. Para que servia?

4 comentários:

Sílvia disse...

hahaha. Que estoria tao gira, embora na altura, se calhar nao achaste muita piada. Voces meninos sao mesmo muito brutinhos, aiai!
A coroa dos frades/padres, ou o que seja; eu tenho ca ideia que isso era mais para lhes tirar a vaidade...ou entao costumavam saltar com amigos mais altos que eles ;)

nandokas disse...

Olá Sílvia,
Sabes, vou aproveitar a tua 'dica' e, da próxima vez que encontrar um padre na rua, vou perguntar-lhe se andou aos saltos com algum amigo mais alto do que ele...:)
E obrigado pela tua visita.

Deus disse...

Toda a gente sabe que a coroa serve para o reabastecimento a partir do céu. Como os americanos a caminho do Iraque. Quanto ao salapismo devo dizer que há variantes interessantíssimas. Na família usavam-se salapismos com mostarda e outras mezinhas para dores de costas, constipações, etc. Pode ser muito interessante nascer no Porto Oriental. Aprende-se muito.

nandokas disse...

Ó deus, não sabia que essa é a função da 'coroa' dos padres. Mas, vinda de ti tal informação, acredito. Até porque imagino que és tu que orientas o pessoal daí de cima a fazer os reabastecimentos... ahahah
E ainda quero dizer-te que, na minha 'famelga' e arredores, os salapismos também tinham esse âmbito. Sabes, é que eu vivi a primeira dúzia de anos 'paredes meias' com o Porto Oriental. E, por isso, permito-me pôr-te esta questão: sabes o que eram os 'lameirais'?...